Conto – As peripécias de Albertine Henslie – I

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Eu já desejei ser alguma espécie de super herói, ter super poderes, mudar o rumo de tudo que eu já vivi. Às vezes já desejei ser por motivos meramente egoístas, confesso, como voar, por exemplo. Fugir dos grandes centros urbanos (como se eu morasse em uma grande cidade), poder entrar e sair quando eu quisesse, ficar invisível, ser reconhecida quando conveniente, assim como não ser notada, se fosse o caso. Talvez muita gente não admita, mas os motivos que tornam a vida de super herói um grande atrativo é o reconhecimento, é a vontade de ser intocável, realizar tudo que se quer.

Vivo há 9 anos neste orfanato em Suez Vale, desde que meus pais morreram. Por conta do trauma psicológico e o extenso período de acompanhamento, nunca houve alguma família que houvesse despertado o interesse de adoção por mim. Por ser mais velha, há algum tempo, ajudo como monitora dos menores, afinal a dirigente daqui, D. Carmen, diz que as crianças gostam muito de mim. Eu até que gosto de passar o tempo com elas. Talvez isso tenha me ajudado manter a sanidade. Recebo um salário pela prestação desse serviço, um valor simbólico, claro. Costumo guardar a maior parte do dinheiro, pois aqui nessa ‘cidadezinha’ não há muito com o que se gastar e também não tenho grandes ambições. Pensando bem, até que fico feliz pelo fato de nunca ter sido adotada.

D. Carmen sempre foi bem mais que simplesmente a diretora do orfanato, ou mais que uma conselheira e amiga, ela é o mais próximo de uma figura materna que eu tenho, e é esta a intensidade do amor que cultivei por ela, embora nunca tenha confessado. No entanto, esta narrativa é um pouco mais curiosa do que possa parecer por esta introdução.

Era manhã do dia 23 de setembro, primeiro dia de primavera, meu aniversário. Acordei com a campainha histérica do meu antigo despertador que ficava em cima da cômoda, ao lado da cama, um dos poucos pertences que eu guardava dos meus pais. Como sempre, um tanto impaciente pela forma indelicada como o despertador soava, o desliguei um pouco grosseiramente e enrolei alguns minutos a mais, pois sabia que D. Carmen viria me chamar de qualquer forma em aproximadamente 7 ou 9 minutos. Nunca menos, ou mais. Estranhamente, não consegui cochilar nesse meio tempo, eu estava um tanto inquieta para ser sincera. Notei que o tempo passou e D. Carmen não apareceu. Foi então que percebi o forte cheiro de queimado invadindo meu quarto, que era o último do corredor do segundo andar. Pulei depressa da cama, abri a porta e mal conseguia enxergar um palmo a minha frente. Ouvi sirenes e a gritaria ao lado de fora do prédio. A fumaça rapidamente começou me sufocar, eu mal podia respirar. Era como se meu pulmão estivesse sendo esmagado. Não havia como chegar até as escadas para sair do prédio. O andar debaixo estava completamente consumido pelo fogo. Voltei ao meu quarto, rastejando e a fumaça já havia tomado conta do lugar. Ao entrar no quarto, avistei um vulto ao lado da minha cama, revirando minhas gavetas. Tentei gritar, mas tudo que consegui foi tossir. Ele virou pra mim, não podia enxergar muito bem o rosto, se era homem ou mulher, jovem ou velho, mas lembro bem da adaga empunhada hostilmente em minha direção, quando alguém interferiu e impediu que esse algo ou alguém me ferisse. Depois disso, não lembro como fui retirada do prédio. Todos só dizem que eu fui encontrada milagrosamente no estacionamento do orfanato, bem para onde minha janela, estilhaçada no momento, dava, mesmo sem entender como eu, curiosamente, saltei 20 metros de altura aproximadamente. D. Carmen me abraçava com força e chorava, dizia que era um milagre, pois eu fui a única que não ouvi o alarme de incêndio e, como meu quarto era o último do corredor, o fogo se alastrou rápido demais para que alguém conseguisse chegar ao segundo andar e me alertasse. Sim, foi um alívio não morrer carbonizada ou asfixiada, ou as duas coisas, mas não consigo deixar de pensar quem esteve ali comigo. Todos diziam que era impossível que alguém chegasse ali, nem mesmo os bombeiros conseguiram acesso, pois o estacionamento ficava atrás do prédio e, por aquela entrada estreita, no máximo uma caminhonete talvez passasse. Não havia rua ali atrás ou passagem para o caminhão deles, ou outra maneira de acessar aquele local por dentro do orfanato, embora estivessem estudando como chegar até a cobertura, mas, afinal, tratando-se de uma cidade pequena, os equipamentos dos bombeiros também não eram tão sofisticados para tanto. Passei o dia do meu aniversário no hospital em observação, depois de muita inalação.

O mais intrigante de tudo foi omitir que alguém estava ali e salvou minha vida. Tive medo de que pensassem que tive uma recaída com meus transtornos. No entanto, foi após este incêndio que uma série de curiosos acontecimentos se sucedeu.

 

 

Por Tauany Farias

Coisa e Tau e Tau e Coisa

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3 opiniões sobre “Conto – As peripécias de Albertine Henslie – I

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