Conto – As peripécias de Albertine Henslie – II

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Já havia passado uma semana desde o incêndio no orfanato. A assistência social nos abrigou em uma escola, sendo mais específica na escola em que eu estudava, afinal quantas escolas poderia haver nesta cidadezinha? Enquanto isso, eu esperava alguma notícia de qual seria o nosso destino.

Confesso que estava preocupada quanto ao rumo da minha situação, pois ouvi uma conversa de D. Carmen com o prefeito, dizendo que o melhor talvez fosse mandar as crianças a orfanatos em outras cidades. Em contrapartida, recebemos muitas doações, muitas visitas, havia muitos repórteres por ali frequentemente e muitas crianças começaram a ser adotadas devido a repercussão da tragédia, que comoveu pessoas em diversos locais diferentes, talvez alguma dessas doações nos ajudasse a reconstruir nosso lar, o único lar que eu conhecia até então.

Estava deitada, naquela manhã fria, olhando aquele amontoado de camas paralelas espalhadas pela quadra, quando avistei um garoto alto, desengonçado, cabelos escuros, olhos fundos, bochechas bem coradas, entrando e ignorando minha presença, dirigindo-se até uma das camas para fuçar uma mochila de lona que estava em cima. Logo gritei:

– Hei, garoto! O que pensa que está fazendo?

Ele parou, olhou para mim arqueando as sobrancelhas, como se o que eu disse não fizesse sentido, então levantei e fui até lá e puxei a mochila das mãos dele grosseiramente.

– O que você pensa que tá fazendo? Essa mochila é das crianças do orfanato. Aqui não tem nada pra você, vá embora.

Então ele chacoalhou a cabeça, arfou com a mão na testa, olhou para mim e respondeu:

– Você realmente não se lembra de nada.

– Não me lembro de quê?

– Do incêndio, Albertine!

– Você me conhece? Quem é você?

Ele sorriu e disse:

– Claro que sim! Você só não consegue se lembrar de mim.

– Quem é você e o que quer aqui?

– Alguém que só quer te ajudar!

– Albertine, com quem você está falando?  – Ouvi a voz de D. Carmen atrás de mim.

Olhei para ela, um tanto confusa e respondi:

– Eu não o conheço, mas ele estava aqui mexendo nas coisas e eu o impedi de pegar algo…

-Impediu quem?

Quando olhei para trás, o garoto estranho já não estava mais ali. Eu não sabia o que dizer, meu coração disparou de tal maneira que ficou difícil respirar.

– Deixe de ser boba, menina! Pare inventar histórias mirabolantes. Vejo que já encontrou as suas coisas. Desculpe, na correria esqueci de entregar a você, mas coloquei ai tudo que conseguimos salvar do seu quarto. – Dizia D. Carmen sorrindo. – Albertine, você está bem? Está pálida.

– Sim, eu estou. Imagina! Vou até a biblioteca, D. Carmen. Depois nos falamos.

Sai rapidamente, tremendamente assustada com o que acabará de acontecer. Será que havia tido uma recaída? Não é possível. Abri a mochila e meu velho relógio, um livreto, um cachecol e um porta-retratos estavam ali dentro. Fui caminhando por aquele corredor vazio, quando avisto sentado, encostado a porta da biblioteca o tal garoto novamente.

Por Tauany Farias

Coisa e Tau e Tau e Coisa

Não leu a primeira parte? Então acesse: As peripécias de Albertine Henslie I

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