Marco e Ana – Parte V

Como-Fazer-um-Almoço-Romântico-2“Marco”

Fiquei a esperando no saguão do prédio. Não que estivesse apaixonado por Rita, mas sua companhia era inegavelmente agradável.

Então o elevador parou no andar e eu a assisti sair do elevador, os raios de sol destacando seus cabelos dourados, a pele macia e pálida, o vestido estampado, modelado as curvas de seu corpo. Sim, não dava pra acreditar que uma mulher assim aceitou almoçar com um cara como eu. E a sútil brisa invadiu o saguão para brincar com seus cabelos ondulados, tornando-a mais graciosa do que ela já era.
Tentando me manter simpático e indiferente a beleza de Rita, que me fazia parecer um idiota, sorri cordialmente.
– Vamos?
-Sim!
Fomos ao restaurante onde costumeiramente almoçamos.
– Para uma mulher do seu tamanho, você tem um baita apetite!
– Ei!
Ela sorriu e deu um tapa de leve em meu ombro.
– E você come como uma moça, Marco Antonio.
Sim, antes que você se espante, meu nome é Marco Antonio. Sou um dos pobres coitados que ganhou dos pais um nome composto. Quer me deixar sem graça, só chamar por mim dizendo ‘Marco Antonio’. Mas confesso que a forma como ela me chamou fez até com que eu gostasse disso.
Lembro-me de só me dar bem assim com Ana.
– Então, Marco, como você se tornou um dos diretores aqui da agência?
– É uma longa e chata história. Na verdade eu era ator.
– Ator? Então sua história é mais interessante do que eu imaginava!
Não sei “porquê” as pessoas se surpreendem quando eu falo sobre isso.
– Qual o motivo da surpresa?
– Bem, não parece seu perfil!
– Eu entendo. Enfim, eu morava com a minha mãe, minha avó e um irmão mais novo. Sete anos mais novo. Minha avó faleceu. Meu irmão adoeceu. Só contávamos com o salário da minha mãe que não era lá grande coisa e tínhamos que reduzir gastos por conta dos remédios. Hoje ele está bem, claro. Mas o trabalho de ator é instável. Podia passar um ano trabalhando direto com sorte, ou não ganhar nada por longos períodos também. Foi então que conversando com um amigo meu publicitário, que estava tentando finalizar uma peça e não prestava muita atenção no meu desabafo, eu descobri esse talento que corre em minhas veias.
Rita me interrompeu com uma gargalhada discreta e eufórica.
– Desculpe interromper. Então, como você descobriu?
– Bom, meu amigo já havia apresentado a peça ao cliente umas três vezes. O cliente havia rejeitado todas as vezes, mas deu uma nova chance. Era uma oportunidade única. Então, como ele não estava prestando atenção em mim, parei para saber o que ele estava fazendo. Sempre gostei de desenhar, então dei algumas sugestões e ele conseguiu o cliente. Depois disso ele me pediu opinião para outros trabalhos, comecei fazer ilustrações, elaborar algumas peças com ele, até que me fez uma proposta de montarmos uma agência e trabalharmos juntos. Eu não entendia nada de comunicação, mas era extremamente bom em criação. Funcionava meio que por intuição, sabe? Hoje eu sou graduado na área, é diferente. Não sou mais um leigo.
– Mas se você teve sua própria agência, como chegou aqui?
– Pegamos um grande cliente na época, fizemos um bom trabalho e o irmão de um dos coordenadores da empresa conseguiu meu contato. Para minha surpresa era o Ricardo, nosso querido chefe. Se interessou pelo meu trabalho, fez uma boa proposta, vendi minha parte da sociedade e aqui estou.
– E a vida de ator?
– Embora eu goste de atuar, minha vida tomou outros rumos. Sabe, eu gosto do que faço hoje.
– Você, cara assistente, qual sua história?
– Nasci, cresci, tive meus dilemas infanto juvenis, meus rolinhos de colégio, meus namorados sérios, coração partido, parti alguns também. Ingressei na faculdade de publicidade. Acabo de me graduar e distribuí currículo para uma série de agências e consegui um estágio aqui. Agora sou efetiva.
– Eu abro meu coração pra você e é isso que ganho em troca? Eu acho que tem mais e você não quer me contar.
Rita deu uma gargalhada espontânea e chacoalhou a cabeça negando.
– Eu tive uma vida normal. Não fui uma atriz que mudou repentinamente sua área de atuação.
– Então eu tive uma vida anormal, é isso o que você pensa?
Sorri, achando divertida a situação e arqueando a sobrancelha para acrescentar um tom irônico a minha fala.
– Não, Marco. Digamos que a sua vida foi mais interessante que a minha. Eu sempre tive uma vida regrada quanto a carreira profissional. Eu me formei justamente na minha área de atuação e dei certo nisso. Com você foi diferente. E hoje você está bem melhor do que eu. Exceto que…
Ele parou do meio da fala. Sacudiu a cabeça e cortou mais um pedaço do bife em seu prato e o levou para a boca. Eu acompanhei o gracioso movimento que seus lábios faziam enquanto ela mastigava.
– “Exceto que?” – Indaguei.
– Nada, deixa pra lá.
– Agora você me deixou preocupado e curioso. Demais de curioso. Talvez eu nem durma por isso!
– Você não vai me levar a mal? Afinal, você é meu chefe.
– Não, estamos como amigos aqui. Pode falar!
– Você é um diretor de criação incrível. É inteligente, tem um excelente senso de humor, é gentil, atencioso, mas você poderia melhorar uma coisa.
As palmas das minhas mãos começaram a suar, senti minhas bochechas corarem. Uma mulher que iria falar o que eu preciso mudar pra ser melhor, depois de ressaltar todas estas minhas qualidades. O pior era que ela dizia para o meu bem, mas isso me deixava inquieto. Acredito que nem consegui disfarçar direito a forma como fiquei subitamente tímido e inseguro. Devido ao meu insucesso com o público feminino, a essa altura do campeonato, tudo era válido.
– O que eu devo mudar?
Tentei soar espontâneo e tranquilo, embora estivesse tremendo por dentro e como foi difícil perguntar.
– Marco, você é um homem bonito, sabia? Precisa se valorizar mais.
Eu acho que não entendi muito bem o que ela disse a principio, mas confesso que meu nervosismo passou. Passou pela minha cabeça que ela podia ter pensado que eu tinha algum problema como depressão ou algo do tipo. Enfim, tirando minha vida amorosa, praticamente um desastre e inexistente de certa forma, eu estava bem.
– Me valorizar mais?
– Isso. O que você vai fazer hoje depois do expediente?
– Vou pra casa.
– Então, antes de ir pra casa vou te levar a um lugar.
– Isso é um convite ou uma ordem?
– Oh, desculpe-me pela forma como eu disse. Claro, vou te levar a um lugar se você quiser.
– Claro!
Não disfarcei o tom animado de minha voz, queria soar menos empolgado. Agora não podia reverter mais o que já havia sido proferido. Tentei corrigir em um tom mais ameno.
– Digo, tudo bem. Contanto que não haja surpresas desagradáveis.
– Prometo que tudo será o mais agradável possível.
Engraçado como parecíamos amigos de longa data. Era ótimo passar o tempo com Rita. Confesso que comecei envolvê-la mais nos meus projetos para que passássemos mais tempo juntos. Adorava seu sorriso, seu humor, sua sutiliza em dizer aquilo que pensava sem ser ofensiva.
Voltamos ao escritório. Até que ao final do expediente, Rita bateu a porta de minha sala e disse:
– Preparado pra irmos?
– Só mais 5 minutos. Vou desligar tudo aqui e pegar meu casaco.

Por Tauany Farias

Coisa e Tau e Tau e Coisa

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2 opiniões sobre “Marco e Ana – Parte V

    • Olá Gilvania! Aqui é a Mari, a Tau é uma convidada do blog, mas quem escreve mesmo aqui todo dia sou eu rs Dei uma passada no seu blog e achei bem legal, estou seguindo também! Obrigada por nos seguir! 🙂 beijos!!

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