Marco e Ana – Parte VII

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“Não, não gostei. Que tal esse?!”
Lá vinha ela, já com um punhado de roupas nas mãos. Não acredito que deixei Rita me trazer para fazer compras. Dessa vez ela me entregou uma calça jeans clara, skinny, mas não tão justa.
“Ah, experimente esta aqui também!” Ela disse me entregando uma camisa preta, básica, como eu detestava isso.
Entrei no provador novamente, sentindo como se fosse um projeto dela, um pouco irritado com a situação, mas é claro, ela estava sentindo um enorme prazer em tudo aquilo.
“Que tal?”
Ela se aproximou, espremeu os lábios, apoiou a mão esquerda na cintura, segurou o queixou com a mão direita, olhou pra mim de cima abaixo minuciosamente, examinando cada detalhe e, confesso, isso me deixou tenso. Ela se aproximou, ergueu seus braços passando por cima de meus ombros, de encontro a gola da camisa e a ajeitou. Abriu mais um botão e dobrou as mangas.
“Uaul! Perfeito agora.” A sua cara de satisfação e missão cumprida me fez sorrir sem que eu percebesse que estivesse fazendo.
Voltei ao provador para colocar minhas antigas roupas que não são tão ruins assim e fui até Rita.
“Vamos levar esse, esse… esse também. Ah, não se esqueça desse, mais esse…” E ela foi dizendo enquanto entregava pilhas de peças a vendedora que nos atendia, sem ao menos me consultar.
Claro, vou pular a parte da conta monstruosa e ignorar o fato de Rita tentar me convencer de que gastar com roupas é um investimento, pensamento totalmente feminino. Também vou paular a parte de quase devolver todas as roupas a loja, mas lembrei do olhar de aprovação de Rita, que era tão sofisticada e dei meu cartão a vendedora.
“Agora vamos a segunda parte. Você tem horário marcado!”
Era impressionante como ela não escondia o olhar eufórico. Parecia que estava brincando de esquadrão da moda comigo.
Ela me levou até seu cabeleireiro, Stefan. Claro que este não deveria ser seu real nome, mas acredito que pelo estilo de vida e pela profissão ele achou conveniente adotar este pseudônimo.

Rita questionou se eu estava desconfortável pelo fato de Stefan ser gay, mas isso não me incomoda. O meu real desconforto era pensar no preço absurdo que eu pagaria por um corte de cabelo. Sim, eu cortava meu próprio cabelo e Rita estava começando a me convencer que grande parte do meu fracasso com o público feminino era devido ao meu espetacular corte de cabelo.
“Stefan, faça sua mágica. Quando voltar, quero surpreender meus olhos ao vê-lo novamente, Marco.”
“Você vai me deixar só… aqui?”
“Não, estarei por perto. Não se preocupe, daqui a pouco eu volto e você está em boas mãos.”
Ela sorriu, enquanto eu estava sentado em uma cadeira próxima a recepção, esperando o que as tesouras de Stefan aprontariam em meus cabelos, com um semblante não tão amigável. Então ela segurou meus ombros pelas costas e me beijou na bochecha. Isso me fez sorrir e não me preocupei em disfarçar.
Entretanto, ela se foi e eu precisava de uma mágica, pelo menos era o que ela pensava. Tudo bem, eu entendi que Rita estava tentando me ajudar, mas não era este tipo de ajuda que eu precisava. Talvez não a que eu precisasse, mas a que eu não queria. Estava me sentindo ridículo. Não sou do tipo vaidoso, mas eu fazia o básico. Tomar banhos todos os dias, desodorantes, perfumes, malhava sempre, ou as vezes, enfim, cuido bem da minha higiene pessoal. Não me visto tão mal assim, mas confesso que até gostei de algumas das novas roupas. Só o preço que não me agradou tanto.
“Pode me acompanhar por aqui? Fica tranquilo, eu não mordo… quando não me pedem. E sei que você não vai pedir.” Disse Stefan, soltando uma gargalhada, enquanto caminhava a minha frente. Eu sorri amistosamente em resposta.
“Pode sentar aqui!” Então sentei em uma poltrona e ele ao meu lado.
“Então, você é chefe de Rita?” Ele começou puxar assunto, enquanto aguardávamos a assistente varrer o espaço dele.
“Mais ou menos.”
“Mais ou menos? Pode explicar?”
“Ela é uma das assistentes da diretoria, mas não é a minha assistente. Cada diretor tem seu assistente direto, mas como o real chefe dela não a solicita muito, eu costumo roubá-la para mim.”
“E você, não tem um assistente?”
“Por incrível que pareça não. Sou um dos únicos lá que dispensa assistentes.”
“Até você conhecer a Rita, não é mesmo?!” Ele disse soltando uma risada sarcástica.
“Pois é. Gosto da forma como ela pensa.” Sorri para ser educado, não gostei muito da insinuação.
“Vamos! Levante-se. Precisamos melhorar este seu cabelo.”
Fui até a cadeira de Stefan. Ele tinha um espaço privativo no salão. Não trabalhava a vista como os demais cabeleireiros de lá. Depois Rita me contou que ele era um dos sócios do salão e o mais requisitado dali também. Conseguiu um horário de última hora pra mim por conta da amizade de anos que tinham.
“Fique quietinho aqui. Não fuja, eu já venho!”
Assenti com a cabeça. Fiquei ali sentado, olhando para aquele espelho enorme a minha frente. Aquele carrinho ao lado, cheio de assessórios, prendedores, escovas, pentes, secador, prancha e muitas outras coisas que eu desconhecia, e já estava feliz em poder discernir estes.
Foi então que meu celular vibrou e o peguei em meu bolso para ler a mensagem:
Sinto sua falta. Me liga qualquer hora! Ana.”
Meu coração se apertou, faziam alguns dias que eu não retornava as mensagens, emails e ligações dela. Não por mal, mas no começo porque havia decidido me afastar, depois porque estava com tantos projetos na empresa, que acabei consumindo todo meu tempo neles e me esqueci de dar um sinal de vida a ela. E como eu sentia falta de Ana. Por mais que a companhia de Rita me fizesse bem, não podia simplesmente deixar de lado meus sentimentos, embora soubesse que Ana jamais iria mudar a forma de me ver, somente um bom amigo.
“E você não fugiu. Que surpresa!” Disse Stefan se aproximando com luvas, um pincel e dois tubinhos.
“Até que sei me comportar.” Dei um breve sorriso de canto para ser simpático.
“Bem, vamos mudar o tom desse cabelo, fazer de você um homem mais moderno!” Ele não disfarçava o tom excêntrico de seu comportamento, a empolgação em misturar aqueles cremes e logo começar espalhar com um pincel aquilo pelo meu cabelo. Não vou negar que dei boas risadas. Até que era engraçado.
“Mas então, quando não tinha Rita, você roubava o assistente de quem?”
“De ninguém.”
“Hummmmm. Ela é encantadora, não é?! Ela gosta de um restaurante italiano que fica a duas quadras daqui.”
“O que isso tem a ver com o assunto?”
“Ai, homens, tão lerdos.” Disse ele com uma expressão de inconformismo.”Escuta, querido, estou te dando uma dica. Depois que eu terminar, vai ser difícil uma mulher te rejeitar.”
“Mas eu e Rita somos simplesmente amigos. Nada demais.”
“Simplesmente amigos? Você acha que eu não senti as vibrações de vocês? Eu vi como você olha pra ela.”
“Eu olho como olharia para qualquer outra moça.”
“Qualquer outra moça em que você também estivesse interessado como está por ela. Dá pra perceber que você gosta dela.”
“Acho que você está confundindo as coisas. Eu e Rita é algo sem probabilidade de acontecer, até porque eu…” Interrompi minha fala quando percebi que já estava a ponto de citar Ana na conversa.
“Você o que? É casado?” Ele arqueou as sobrancelhas bem feitas, parou por um momento de pincelar aquele creme no meu cabelo e ficou me olhando com espanto.
“Não. Claro que não!”
“Que susto! Então qual é o problema?” Voltou a pincelar meu cabelo.
“Não há problema algum, mas estou te dizendo, somos apenas bons amigos de trabalho.”
“Olha, não me engane, rapaz. Tenho sexto sentido pra essas coisas. Dá pra perceber que rola um clima entre vocês, mas você tem algo que o impede. Quer um conselho?”
“Um conselho?” Não tenho nada a perder. Já estava ali mesmo. “Diga!”
“Rita é uma mulher incrível. Ou você escolhe se quer ficar neste impasse que o impede e perde a oportunidade de estar com uma mulher exuberante, ou leva Rita pra jantar naquele restaurante que eu te disse.” Este conselho veio acompanhado de uma piscadela.
Stefan até que me fez pensar bastante sobre a minha situação. Infelizmente eu ainda estava preso a estes sentimentos por Ana.
“Agora vamos esperar alguns minutinhos enquanto a tintura age.”
“Tintura? Você pintou meu cabelo?”
“Ué, achou que eu estava fazendo o que?
Fiquei frustrado por ser tão leigo neste momento.
“Relaxe e confie em mim! Quer uma bebida, Marco?”
“Não, Stefan. Obrigado.” Ainda não acredito que permiti que alguém tingisse meu cabelo.
“Julieta, traz pra mim um chá, por favor!” Gritou Stefan para uma assistente.
“Certeza de que não quer nada?” Ele me olhou por baixo, com uma expressão interrogativa quase que insinuando que eu queria algo sim.
“Não, estou bem. De verdade. Obrigado.” Sorri cordialmente.
Conversamos sobre uma série de coisas. Stefan arranjava tantas perguntas quantas eram possíveis. Contei dos meus tempos de ator. O que me fez lembrar muito Ana. Fiz o máximo para evitar citá-la.
Ele lavou meus cabelos, colocou aquele avental de plástico sobre mim abotoando em meu pescoço. Pegou uma das tesouras que tinha em uma espécie de cinto, carregava nele algumas tesouras, um pente e alguns prendedores. Então começou a cortar meu cabelo.
Enquanto isso conversávamos e ríamos, em alguns momentos o achei inconveniente. Dizia coisas inusitadas, enquanto me convencia de que eu deveria ir aquele restaurante italiano com Rita.
Ele me virou de costas para o espelho, pegou o secador e começou a passar a mão em meu cabelo como se estivesse contribuindo com o vento do secador para me despentear. Quando meu cabelo estava totalmente seco, usou uma espécie de pomada capilar, ajeitando meu cabelo com os dedos, enquanto olhava para mim concentrado, arqueando uma das sobrancelhas e apertando os lábios.
“Voilá!” Ele disse satisfeito, virando a cadeira para que eu me olhasse no espelho.
“Sou eu mesmo?” Disse ironicamente me olhando espantado no espelho.
“Marco, meu querido, você só precisava ser lapidado. Agora desfrute dos benefícios de uma boa aparência.”
“Pelo valor que terei de pagar, precisa haver muitos benefícios mesmo.”Ri sarcasticamente após meu comentário.
“Pagar? Nada disso. Isto é um presente para minha amiga. Você é um rapaz decente. Rita precisa de alguém como você por perto. Já cansei de vê-la com idiotas por aí.”
“Stefan, não precisa. Eu posso pagar, sou só meio muquirana.”
“Não, eu insisto. Me sentirei ofendido se você não aceitar. A proxíma você vai pagar, fique tranquilo.” Ele sorriu, olhando para mim satisfeito, com os braços cruzados.
“Não sei se vai haver proxíma vez. Sabe que eu não sou muito disso.”
“Acredite, você vai voltar! Você vai gostar de ouvir o que as mulheres tem a dizer agora sobre você.”
“Marco?! É você?!” Disse Rita espantada ao me ver.
Por Tau Farias
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