Por Rita (Ana e Marco) – Parte XIV

rita

Era quase insano fazer o que eu pensava que deveria fazer, negociar minha felicidade por conta de um sentimento de pena, talvez com uma mistura de culpa e receio. Só sei que não podia mais negar o que eu sentia por Marco e o quanto o queria. Ah, os beijos de Marco. Seus lábios tão macios, se movendo tão gentis e apaixonados contra os meus.
Ele se afastou para me olhar, encostou os lábios em minha testa, puxando-me de volta para seu peito e me abraçando com força.
“Nós precisamos realmente conversar, mas precisamos trabalhar também.” Ele disse sorrindo.
Então eu lembrei que minha vida possuía outras vertentes e, se quisesse permanecer com meu emprego, deveria correr.
“Eu estou extremamente atrasada, Marco!”
“Calma! Você está comigo, esqueceu?” Ele me fitou com um olhar pretensioso e um sorriso de canto.
“Ah, vamos logo. Meu Deus, o Carlos vai me matar!”
“Relaxa. Ele nunca faz nada. Se ele pegar no teu pé, eu converso com ele.”

Entramos no carro de Marco e partimos. Fomos em silêncio até o escritório. Chegamos em aproximadamente 15 minutos.
Marco deixou o carro no estacionamento do prédio. Entramos pelo saguão e fomos esperar um elevador.
Marco, estava parado ao meu lado, com as mãos nos bolsos, olhando pra mim de canto. Talvez ele não soubesse muito bem como agir, e eu também não.
Logo um elevador parou no andar e entramos. Eu primeiro, Marco em seguida.
Paramos de frente para a porta, em silêncio. Quando senti a mão de Marco segurando a minha.
Virei o rosto para olhar, ele estava me olhando, sorrindo.
“Você é linda!”
Senti minhas bochechas corarem. Eu tentava disfarçar, mas não me reconhecia perto dele. Quando ele sorria, com seus dentes todos alinhados, eu não podia resistir.
Paramos no andar, ele soltou minha mão.
“Vamos. Primeiro você!”
Ele sempre cavalheiro comigo.
Marco tinha singelas qualidades que faziam total diferença. A sensibilidade, o cavalheirismo, o cuidado, a percepção, a atenção que ele dispensava para ouvir qualquer coisa que eu tivesse a dizer, por mais tola que parecesse.
Fui para minha mesa. Encontrei outra flor e outro bilhete, com a letra de Marco:

Em pensar que neste dia eu praticamente havia partido seu coração. O estranho é lembrar do quanto eu fui apaixonada por Ivan, mas este sentimento era algo totalmente novo pra mim. Eu não gostava de Marco pelo que aparentava, eu gostava pelo que era. Ele simplesmente me fazia bem. Apertei o bilhete contra meu peito e dei um suspiro. Eu deveria tomar uma decisão, de uma vez por todas.
“Rita? Tudo bem?” Carlos me fitava com um olhar preocupado.
“Carlos. Sim! E você? Desculpe o atrasado.”
“Imagina, Rita. Sei que você tem passado por uma situação difícil com seu noivo. Espero que ele esteja melhor.”
Quando ele disse isso, meu coração se apertou. Talvez Ivan nem voltasse mais a andar. O que ele iria pensar, que ao saber disso eu me joguei aos braços de outro? A verdade era que eu já estava apaixonada por Marco antes de Ivan se recuperar do coma.
Engraçado é que no fundo nós sabemos qual a escolha certa. Eu deveria dar um jeito em tudo isso. Apesar das traições de Ivan, da sua indiferença, ele estava arrependido e merecia ser feliz.
Comecei a colocar a papelada da minha mesa em ordem, reaver as campanhas em que estávamos trabalhando e entrar em contato com alguns novos clientes de Carlos.
Passei o expediente praticamente colocando tudo em dia e me focando no trabalho pra não pensar no resto. Quando me dei conta o escritório já estava quase vazio.
“Oi!” – Ouvi alguém sussurrar.
Marco estava parado, encostado a uma divisória do lado esquerdo de minha mesa, com os braços cruzados.
“Rita, eu…”
“Marco!” Eu o interrompi. “Eu acho…”
“Eu sei. Só ia dizer que vou te esperar.” Ele me interrompeu, completando sua frase.
“Mais dez minutos e eu vou até a sua sala.”
“Estarei lá esperando.”
Desliguei o computador. Peguei minhas coisas e fui até Marco.
Não sabia se deveria entrar, se deveria bater antes. As coisas estavam realmente confusas.
Antes que eu tomasse minha decisão a porta se abriu.
“Pode entrar.”
Entrei, Marco, convidativo, fechou a porta atras de mim.
Fiquei de pé, em frente a mesa.
“Rita…” Marco veio até mim e segurou minha mão. “Eu… não sei como dizer, mas eu quero você. Eu penso em você, eu sonho… E quando eu passo o dia longe de você, tudo o que eu quero é que a noite chegue logo pra tentar sonhar outra vez com você.”
Ele olhava paras nossas mãos entrelaçadas enquanto falava e eu via suas bochechas corarem.
“Marco…” Eu levantei o rosto dele para olhar em seus olhos, o acariciei, dei um passo para junto dele. “Você faz com que eu me sinta boba.” Ele sorriu. Levou minha mão até seu coração, pulsando forte em seu peito.
“E olha o que você faz comigo!”
Então, mais uma vez nos beijamos, dessa vez sem pressa, apaixonados, como se tivéssemos esperado o dia todo só para estarmos juntos novamente. Eu me lembrei de Ivan. Ele era a parte que me angustiava.
Eu me afastei então do envolvente abraço, da daqueles calafrios na barriga que o beijo de Marco me causava.
“Preciso falar com Ivan.”
Marco assentiu.
Ele me deixou no hospital e queria me esperar, porém eu pedi pra que fosse embora. Marco entendeu e achou melhor ir, mas deixou claro que se precisasse era só ligar para ele.
Fui até a recepção, peguei o crachá de visitante. Já era conhecida dos enfermeiros e recepcionistas. Perguntei a uma enfermeira do andar em que Ivan estava se ele estava acordado. Ela assentiu com a cabeça.
Fui até seu quarto.
Entrei devagar, passei pelo curto corredor de dentro do quarto e la estava Ivan, com o controle remoto em mãos, zapeando.
“Oi, meu amor! Achei que não fosse vir hoje.”
“É claro que eu viria.” Parei ao pé da cama, dei um sorriso amarelo, constrangida pelo entusiamos com o qual ele me olhava. Ele percebeu que eu não estava como nos outros dias.
“Ei, algum problema?” Ele me olhou franzindo a testa.
Ivan, mesmo estando abalado com a notícia de seu estado, agia como se aquilo não o abatesse.
“Preciso conversar com você. Você me ama?”
“Amo, é claro!”
Eu me aproximei dele pelo lado direito da cama.
“Ama mesmo, ou eu sou a sua única esperança de não morrer sozinho?”
Fuzilei seu olhar com o meu.
“Rita, eu já sabia que uma hora você ia ter essa conversa comigo. Também sei que você não sente mais por mim o que já sentiu. Hoje eu enxergo o quanto desperdicei, e o quão incrível você é. Pode me perdoar?”
“Ivan, a questão não é perdão. Eu já não me importo mais com o passado.”
“Então, você deve ter outra pessoa!”
Eu desviei meu olhar do dele, não sabia como dizer o que estava acontecendo.
“Ah, eu já deveria imaginar. Droga! Tem outro cara na história. Eu fui idiota de pensar que eu seria o cara de quem você sempre iria gostar… Agora aleijado, quem quer um aleijado?” Vi Ivan se alterar, os batimentos cardíacos subirem, fiquei assustada com sua raiva. Ele respirou fundo, melancólico e olhou para mim. “Rita…” Suspirou estendendo sua mão e tocando meu rosto.
“Desculpe! Sei que isso não tem nada ver com a minha situação física, nós nem estávamos mais juntos quando tudo aconteceu… Eu sei também que eu fui um cafajeste contigo. Não te dei valor, fui indiferente, só te causei frustração, mas sei que você merece ser feliz. Não tenho o direito de tirar isso de você. Não posso dizer que isso me deixa contente, mas eu te devo pelo mal que lhe fiz. Vá ser feliz! Você precisa… Você merece!”
Eu fiquei espantada com a compreensão de Ivan, espantada com sua postura tão madura. Ele não precisava ter passado pelo que passou pra ter essa postura. Lembro de como eu costumava o admirar, seus cabelos lisos, negros, suas grossas sobrancelhas, seus lábios carnudos, seus traços fortes e os olhos verdes. Ivan era o mais cobiçado de nossa turma. Eu fui a escolhida, mas hoje entendo que as coisas não são bem assim. Todas as boas lembranças de momentos nossos regaram meus pensamentos.
Então eu me inclinei para beijar sua testa e nos abraçamos.
“Obrigado por me perdoar… Amigos?” Ele sugeriu com um sorriso amistoso.
“Amigos!”
Por Tau Farias
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