Rita, Marco e Ana – (Parte XV)

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“Acorda, preguiçosa! Hoje é dia de tomarmos café juntos.”
“Eu quero dormir, Marco! Vou desligar.”
“Deixa de preguiça, Ana! Levanta! Começa se mexer, o dia tá lindo!”
Marco já estava no portão de casa buzinando, as 8 da manhã de um feriado. Eu ficava extremamente irritada com Marco em seus dias de alegria efusiva ,que me tiravam da cama.
“Eu vou tomar banho, já desço.”
“Não demore 2 horas, por favor!”
“Eu não vou te responder.”
Ouvi a gargalhada dele.
“Estou te esperando aqui no carro.”
Estiquei os braços, pressionando as mãos a cabeceira da cama, seguindo-se uma série de bocejos e espreguiçamentos que faziam parte do meu ritual matinal.
Entrei no banho e deixei que a água escorresse por todo meu corpo, enquanto meu cérebro recobrava a lucidez e despertava inteiramente do meu estado sonolento.
Estava muito quente, então vesti uma regata básica, bermuda jeans e meu converse. Passei meu protetor solar, afinal, deveria preservar a cútis em bom estado para que os anos não pesassem tanto. Peguei os óculos de sol, coloquei meus documentos, cartões, algum dinheiro e meu celular em uma bolsa tiracolo de tecido. Desci as escadas sem pressa e fui até o portão. Mamãe já estava lá papeando com Marco e Rita. Sim, Rita. Eu me sentia a vela do relacionamento, mas ele fazia questão de mim. Saímos os três. Acho que Rita devia me detestar. Há um ano e meio de relacionamento dos dois, eu estou sempre presente. Já ouvi desabafos dos dois lados, já ajudei na escolha de presentes pra ambos. Enfim, isso é um tanto desgastante.
Enquanto Rita e Marco tagarelavam, eu estava meio aérea. Distraída com a calmaria da manhã, com o paisagismo das ruas de São Paulo e as diferentes pessoas que passavam.
“Ei, Rita, nós vamos ao teatro amanhã. Quer ir?”
“Não. Tenho outros planos.”
“Que planos?” Rita indagou com uma risada sarcástica.
“Planos meus! Faz diferença eu contar?!” Então percebi o quão ríspida minhas palavras soaram, mas dei de ombros, assim como Rita também. Sei que ela ficou feliz por Marco não ter insistido, e certamente um pedido dele eu não recusaria.
Rita se debruçava sobre o ombro de Marco, enquanto ele dirigia e afagava seu rosto. Eu ainda não havia me acostumado com ele agindo com alguém daquela forma.

Chegamos a nossa padaria predileta, que agora compartilhávamos com Rita.
Enquanto os dois batiam boca porque Marco nunca lembrava o que ela queria, eu brincava com os canudos sobre a mesa. Não sei porque eu ainda estava ali com os dois. Logo em seguida fazendo as pazes, com aquela melação, aqueles mimos e aqueles dengos de Rita. Meu único consolo era que Marco estava feliz, mas estar apaixonada pelo melhor amigo e sair por aí acompanhando os dois, era estranho demais até pra mim. Eu precisava parar com aquilo, mas como Rita não gostava que Marco saísse sozinho comigo, ela sempre estava com ele.
Claro, eu a entendo. Afinal, eu fui a paixão dele por um bom tempo. O instinto de Rita era pura autodefesa. Eles realmente se gostavam e estavam felizes, mas eu só estava conformada.
Eu merecia aquilo pela dor que, mesmo não proposital, causei a ele. Eu pensava constantemente que ele poderia ter se declarado pra mim antes e as coisas seriam diferentes, mas eu sempre soube que ele jamais teria coragem. Então, sem me importar, eu seguia. Não imaginava as proporções do sentimento de Marco, embora soubesse que existia.
Estampava aquele sorriso conformado no rosto e não falava muito.
“Ei, Ana, posso saber o que você vai fazer amanhã?”
“Bem… eu vou sair com um amigo.”
“Nossa, que boa notícia, amiga!” Disse, Rita, toda entusiasmada, desencostando do ombro de Marco e sorrindo euforicamente para mim. Eu nem precisava ser médium pra descobrir o que talvez tenha passado pela cabeça dela.
Marco arqueou as sobrancelhas e inclinou a cabeça com uma expressão confusa.
“Que amigo?”
A verdade que não havia amigo nenhum. Não sei porque inventei essa história, mas eu tinha que me afastar dos dois por um tempo.
“Você não o conhece.”
“Você já me falou sobre esse amigo?” Ele perguntou franzindo a testa. Pelo olhar eu já sabia que
ele havia percebido que era mentira.
“Não… acho que não!” Dei de ombros e dei uma golada em meu suco de laranja.
“Ah, Marco… Por que tanta curiosidade? Uma hora ela nos apresentará o misterioso e seremos quatro.”
O sorriso meigo de Rita não me convencia tanto. Não sei o que Marco fazia com ela, francamente.
Tudo bem, ela era linda, inteligente, prestativa, carinhosa, mas eles tinham personalidades tão diferentes. Não que eu combinasse mais com ele, só que tínhamos mais afinidade, fato.
“Bem… Espero que não seja com um cara que finge esquecer o cartão pra você pagar a conta.”
Apertei os olhos para encarar Marco, jogando um guardanapo amassado, que atingiu seu ombro, enquanto ele gargalhava.
“Marco, encare pelo lado bom… Eu não vou ficar no pé de vocês! Certo, Rita? Afinal, um casal precisa de privacidade.”
Rita me olhou, repousando a mão no ombro de Marco, com o corpo colocado ao dele. Rapidamente o fitou e deu um sorrido pretensioso, elevando sutilmente os ombros.
“Pelo menos não fui eu quem convidou um travesti para sair por engano!”
Gargalhei, enquanto Rita me acompanhou tirando sarro de Marco.
“Então, vai ser assim? Vamos jogar sujo? Sei muita coisa sobre você!”
“Eu também tenho cartas na manga, meu querido. Ei… Lembra daquela viagem a Monte Verde, em que você escreveu um bilhete para aquela minha amiga, a Jéssica, e ao invés de colocar na bolsa dela, colocou na minha, só que você não colocou o nome do destinatário e eu pensei que fosse pra mim… Pior, pensei que havia sido o Cadu, que no final ficou com a Jéssica. Fiquei com tanta raiva dela… E nós dois ficamos sem ninguém…”
Foi aí que minha ficha caiu, o bilhete era pra mim, mas ele mentiu. Na verdade, ele próprio devia ter ajudado o Cadu com a Jéssica, na esperança de que eu percebesse.
Então, nossa expressão se alterou, percebi como Marco havia ficado sem jeito porque eu havia percebido isso só agora. Tudo começou fazer sentido e doer mais. Como pude ser cega por tanto tempo?
Rita percebeu a tensão.
“O que aconteceu?”
“Eu preciso ir embora!”
“A gente te leva, fica mais um pouco!” Disse Rita enquanto Marco estava em silêncio.
“Não, eu preciso ir. Fiquem vocês, eu pego um táxi.”
Eu não podia ter raiva de Rita, não podia ter raiva de Marco. Eu era a culpada dessa situação.
Por que eu não consigo parar para olhar aquilo de bom que tenho ao redor?
Senti meu celular vibrar em minha bolsa.
“Alô?”
“Ana, é o Renato. Tudo bem?”
“Olá, Re! Há quanto tempo, não?”
“Bastante tempo. Como vão as coisas?”
“Caminhando. E contigo?”
“Acelerando, diga-se de passagem.”
“Que ótimo!”
“E a carreira? Atuando bastante?”
“Re, para ser franca, fazem 6 meses que eu não atuo.”
“Olha, tenho uma proposta. Que tal atuar em um dos meus espetáculos em Londres?”
“Londres?”
“A turnê começa lá. Passaremos por toda Europa, praticamente.”
“Nossa, Re… Não sei o que dizer! Uau… É uma excelente oportunidade.”
“Arriscada também, por isso, darei um tempo pra você me responder até o final da próxima semana.”
“Vou pensar e te dou um retorno em breve!”
“Como você quiser! Um Beijo, Ana. Saudades”
“Beijo, Re. Obrigada, pelo convite.”
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