Ana e Marco – Parte XIX

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“E aí? To te esperando!”
“Rita, mil desculpas.”
“Acho que a gente precisa conversar. O que está acontecendo, Marco?”
“Não sei! Realmente precisamos conversar.”
“Pois é. Você ainda vem?”
“Eu estou indo já!”
“Estou esperando!”
Desliguei o telefone e não consegui disfarçar minha frustração.
“Argh! Que raiva, vó! Que raiva!”
Joguei-me sobre o sofá, apertando uma almofada contra o rosto e bufando.
“Calma, Rita! O que foi?”
“O Marco, seu queridinho!”
“O que tem o Marco?”
“Não sei, vovó! É justamente o que eu quero saber. Nos últimos meses ele anda tão estranho… Não liga, não fala muito, é frio, parece estar fora do ar, se esquece dos combinados!”
“Minha filha, já conversou com ele sobre isso? Talvez ele esteja passando por um problema sério!”
“Ah, vó! Sinceramente, não sei se ele gosta mais de mim!” – Senti minhas bochechas queimares e a vista embaçar com as lágrimas.
“Oh, minha netinha!”
Vovó se sentou no braço do sofá ao meu lado, estendeu seus braços e me puxou para seu abraço. Não pude conter o choro.
“Filha, vocês precisam se resolver. Nem sempre o amor é do jeito que nós gostaríamos que fosse! Por mais que você goste de Marco, ou que ele seja uma boa pessoa, você não pode estar em uma relação que te faça mal.”
“Eu sei vó, mas eu realmente pensei que agora as coisas estavam indo bem!”
“Ah, Ritinha… Não é porque o desfecho da história não é como você pensou que as coisas não vão ficar bem! Seja feliz por si mesma, minha querida, encontre um homem que só multiplique essa felicidade!”
“Obrigada, vovó! Eu amo você!” Ergui o rosto e encontrei um sorriso de conforto em meio ao pranto. Vovó beijou minha testa e respondeu:
“E eu te amo demais, meu amor!”

——————————————————————————————

Cheguei ao prédio em que Rita morava. Seu Jair, o porteiro, já me conhecia.
Abriu a porta e estendeu a mão por entre a janela da guarida para me cumprimentar.
“Ei, Marco! Tudo bom?”
“Tudo bem, Seu Jair. E contigo?”
“Bem também!”
“Deixa eu correr lá, se não a mulher vai ficar brava comigo!”
“Vai lá, Marcão!”
Rita morava no sexto andar. Entrei no elevador e tentei pensar no que dizer. Como explicar. Sei que eu andava meio estranho com Rita. Que as coisas já não eram mais do mesmo jeito. Sabia que havia sido a gota d’água dessa vez. Ela iria querer explicações e, mais do que isso, que eu fosse honesto.
Confesso que fiquei apreensivo em tocar a campainha, hesitei um tanto. Não sabia bem como seria o desenrolar desta conversa, não que eu não gostasse de Rita, mas só conseguia pensar em Ana. Não era mais a mesma coisa.
Tomei coragem e toquei. Logo ouvi passos vindo em direção a porta e a maçaneta girar.
“Marco.” Meu nome nunca soou tão triste em seus lábios. Ela me abraçou ali na entrada de seu apartamento mesmo. Ficamos um tempo naquele abraço, eu apoiando meu queixo sobre sua cabeça, que repousava em meu peito. Então eu disse:
“É melhor entrarmos.” Ela assentiu com a cabeça. Entramos de mãos dadas.
Dona Carmem bordava em uma cadeira na varanda, aproveitando a luminosidade do sol daquela manhã. Fui até lá cumprimentá-la.
“Olá, Dona Carmem!”
“Marco, querido!” Ela deu aquele sorriso totalmente cativante, não pude deixar de sorrir em retribuição.
“Tudo bem com a Senhora?”
“Tudo bem, filho. E você?”
“Bem, Dona Carmem.”
“Ótimo! Espere que ambos continuemos assim.”
“Eu também!” Ela sorriu afetuosamente mais uma vez, e claro que instantaneamente eu sorri de volta.
Rita me puxou para seu quarto. Sentei em sua cama, encostando-me na cabeceira. Ela veio e se acomodou junto a mim. Passei o braço por suas costas, trazendo a mais para perto, e beijando seus cabelos.
“Marco, o que está acontecendo com a gente?”
“Não sei!”
Ela balançou a cabeça, que estava repousada em meu ombro.
“Seja sincero. Eu sei que está acontecendo algo que você não quer me contar.”
“Ah, Rita…” Respirei fundo, tentando encontrar as palavras corretas, procurando os eufemismos mais sutis que eu pudesse usar.
“Sabe o que machuca? É você não ter coragem de me dizer! Somos adultos já, precisamos ser honestos se quisermos que as coisas fiquem bem entre nós!”
“Rita, eu nunca quis te machucar!”
“Ninguém machuca alguém de quem gosta propositalmente… Eu acredito que você goste de mim, mas sei que já não há toda aquela intensidade e não sei o que você realmente quer comigo! De uns meses pra cá, você mudou muito!”
“Desculpa, eu sei que preciso melhorar, mas as coisas não estão fáceis.”
Ela se desencostou do meu corpo e olhou em meus olhos.
“Chega de se desculpar, Marco! Eu quero só que você diga o que está se passando!”
“Já disse que as coisas não estão fáceis, é complicado!”
“Não estão fáceis, como?” Ela me olhou franzindo a testa.
“Não estão fáceis aqui!” Coloquei a mão sobre o lado esquerdo do peito.
Rita afagou meu rosto e colocou sua mão sobre a minha mão repousada no peito.
“Rita, hoje eu… eu fui atrás de Ana.” Ela afastou as mãos de mim e arregalou um tanto os olhos. Percebi seus olhos se estreitarem, a testa franzir. Um semblante de inconformismo começava se modelar em seu rosto.
“Mas não é nada do que você pensa. Ela foi embora, sem nem ao menos me avisar! Foi pra Londres!”
“O que isso tem a ver com a gente, Marco?”
“Já fazem quase 3 meses que eu e Ana estamos praticamente sem nos falar. Eu… não sei o que dizer mais!”
Eu olhei para baixo e chacoalhei a cabeça, pensando no que eu estava fazendo e porque eu estava fazendo. Por que esses dramas de amor tão clichês, com falas repetidas, depreciação sentimental, altos e baixos, faziam parecer que eu andava em círculos?
Parece que todas as perspectivas de finalmente ter uma vida tranquila quanto estas questões do coração, escorriam por entre meus dedos e eu estava voltando a estaca zero.
Rita colocou a mão sob meu queixo e levantou minha cabeça, para encontrar meu olhar perdido novamente.
“Marco, você ainda gosta dela, não é mesmo?”

Eu não consegui responder. Eu tinha um bloqueio para responder perguntas tão diretas, pois eu sabia o quanto isso a machucaria.
“Rita…” Eu segurei sua mão entre as minhas. “Não sei o que está acontecendo comigo. Não posso negar que eu estou triste com a ida dela, mas não sei se posso fazer outras afirmações além desta.”
“Não sabe? Sinceramente, Marco, ou você começa ser honesto consigo mesmo, porque não é a mim a quem você está enganando. Omitir só vai piorar as coisas!”
“Rita, não sei se posso mais fazer isso!”
Rita se levantou da cama e foi até a janela. Se virou de costas pra mim, cruzou os braços e ficou olhando para fora.
“Eu não quero que você se magoe mais comigo. Sei que não tenho sido bom pra você nos últimos dias.” Levantei e fui até ela. Repousei as mãos sobre seus ombros. Ela levantou os ombros rejeitando meu toque e indo para outro canto do quarto, longe de mim, sem me encarar.
“Eu preferia não ter te conhecido!” Percebi a melancolia em seu tom. A voz tremula. Certamente ela estava chorando.
“Rita, eu nunca quis que as coisas chegassem a esse ponto! Não significa que eu não tenha te amado, ou que eu não te ame… é só que…”
“É só que você nunca conseguiu esquecer Ana de verdade… Você nunca vai olhar pra mim como olha pra ela!”
“Não é bem assim!”
Ela se virou para mim, então eu pude ver suas lágrimas, sua frustração e aquilo acabou comigo.
“Então é como, Marco? Você sempre fez muita questão dela. Ah, como eu fui burra ao me envolver com você!” Até agora, eu nunca tinha visto Rita com raiva, gritando. Percebi a besteira que eu havia feito.
“Eu nunca quis que ninguém se machucasse. Você pensa que eu estou feliz? Que eu não dou importância a tudo que está acontecendo? Eu realmente gosto de você, mas as coisas mudaram e eu me sinto tão atormentado com tudo isso!”
“Ana teve todas as chances com você! Agora ela resolve se declarar e fazer todo esse “draminha” pra chamar tua atenção e consegue.”
“Ela não fez nada pra chamar minha atenção. A culpa de tudo isso não é dela, é minha! Só minha! Não tente encontrar outra desculpa!”
Rita começou a soluçar e chacoalhou a cabeça.
“Por que, Marco? Por que?”
“Eu não sei! Quem consegue entender o coração? É como se não houvesse diálogo entre ele e a razão.”
“Eu pensei que nós até chegaríamos longe… sabe?”
“Ah, eu também pensei. Acredite!”
Fui até Rita e a abracei.
“Por favor, me perdoa? Eu queria tanto que as coisas fossem como antes. Eu nunca te enganei!”
“Eu sei!” Era tudo o que ela conseguia pronunciar em meio ao choro.
“Agora nós voltamos a estaca zero. Sozinhos de novo!”
Rita se afastou e me olhou enxugando as lágrimas.
“É melhor você ir embora!”
Eu estendi a mão em direção a seu rosto para ajudá-la com as lágrimas. Mas novamente ela rejeitou.
“Não posso ficar por mais tempo perto de você. É melhor você ir de vez!”
Aquilo partia meu coração, mas eu também não podia ficar ali.
“Então… é isso?”
“Pra mim poderia ter sido muito mais, Marco. Preciso ficar sozinha.”
“Tá bem.!”
Eu saí do quarto e uma súbita tristeza invadiu meus sentidos. Agora eu não tinha Ana, não tinha Rita. Não tinha nada. Nem se quer perspectivas, só duas alianças e uma saudade. Saí de lá sob a companhia da solidão que só gerava mais solidão. O cheiro de Rita e de Ana misturados em minha camisa. De tudo, o ninguém e meu ego foi o que sobrou.
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