Ana e Marco – Parte XX

22

 

Andei recapitulando a minha história. Conheci Ana e gostar dela foi fácil. Gostar de Ana era fácil. Ela era talentosa, sabia me fazer rir, gostava de coisas inusitadas que eu também gostava. Entretanto, apesar de ser encantado por Ana, ela nunca me percebeu, eu também nunca quis me declarar. Ela simplesmente caiu nos braços de outra pessoa. Só me restava seguir em frente. Quando Rita apareceu, subitamente, e me salvou daquela dor que foi amar Ana em silêncio, eu realmente pensei que havia conseguido me desprender de todas aquelas emoções.
Dois anos com Rita, foi um excelente tempo pra construir boas lembranças, pra planejar um futuro, mas talvez meu erro tenho sido sempre manter Ana por perto. Eu estava tão habituado e mal acostumado a tê-la presente, que não me dei conta das proporções que o sentimento dentro de mim estava tomando. Eu simplesmente a amava. Dizia a mim mesmo que não, por muito tempo fiz isso, mas como eu supostamente poderia continuar amar alguém por quem eu sofri tanto? Por que agora ela tinha que se declarar e ir embora? Ela era perita em me magoar. Queria que o amor por ela fosse efêmero. Gostaria de dormir, acordar no dia seguinte e não pensar mais em Ana. agora ela estava do outro lado do oceano e eu aqui, da mesma forma que me senti há anos atrás. Mesmo que ela gostasse de mim, o que eu supostamente deveria fazer? Eu era um tanto orgulhoso. Não conseguia aceitar bem o fato de descobrir que estes sentimentos só estavam latentes em mim e agora despontaram, até com mais intensidade do que da primeira vez, pois sem perceber eles simplesmente foram sendo alimentados por mim este tempo todo.
Agora o que me perturbava foi saber o que Ana deve ter passado me vendo com Rita. Saindo com a gente, ajudando escolher alianças. Realmente, se eu me senti machucado, posso dizer que ela sente o mesmo.
Eu praticamente divagava em meus pensamentos, enquanto meu chefe falava sobre os nossos principais projetos e novos clientes. Não conseguia prestar atenção a nada.
“O que você acha, Marco?”
“Eu? Bem… Eu acho ótimo!” Eu nem ao menos sabia do que se tratava. Era melhor começar prestar atenção.
“Então, quem você acha devíamos mandar para lá?”
“Pra onde?”
“Marco, Irlanda!”
“Ah, claro. Por quanto tempo?” Lá estava eu, constrangido por não ter prestado atenção, tentando disfarçar.
“Eu indico o Julio. Ele é bem preparado pra algo assim e acredito que ele gostaria de morar fora por um tempo.”
“Converse com ele e me dê uma resposta hoje. Em duas semanas ele precisa ir.”
“Já? Mas eu preciso de um tempo para falar com ele saber se realmente quer isso. Fora os preparativos, conseguir visto, moradia, é muito repentino”
“Convença-o. A princípio nós arcaremos com hotel, daremos um jeito de conseguir tudo o que for necessário para que ele se instale lá!”
Sei que não seria difícil convencê-lo a ir. Júlio era jovem e aventureiro. Era um dos mais dinâmicos e criativos da minha equipe. Ruim seria ter a equipe desfalcada, mas tudo bem.

Enquanto caminhava de volta a minha sala, ouço alguém me chamar:

“Marco!”

“Ei, Carlos!”
“Então, o chefe disse que se você quiser pode usar alguém da minha equipe pra não desfalcar a sua. Pensei que se você quiser Rita, fique à vontade!”
“Ei, acho que não é boa ideia no momento. Vou ver como as coisas vão fluir e te digo.”
Entrei em minha sala, sentei e me debrucei sobre a mesa, atordoado pelos sentimentos que impregnavam meu coração e tiravam minha concentração do trabalho.
Só queria encontrar paz, calma, recobrar a lucidez que o amor me levou, ser feliz por mim e por mais ninguém. Só que logo voltava a pensar em Ana, na minha covardia de nunca ter coragem de dizer que eu a queria. Não podia culpá-la totalmente pelas minhas mágoas, afinal, eu fui omisso. Não sei o que eu esperava, que ela chegasse até mim e dissesse que me amava? Bem, ela já fez isso. Não no momento que era oportuno, mas no mais complicado pra mim.

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“Alô, Caio?”
“E aí, irmão. Tudo certo?”
“Certo. Afim de fazer algo hoje?”
“Pode ser, mas você paga.”
“Você não tem nem vergonha, seu pilantra! Onde eu te pego?”
“Eu to no estúdio com o Cadu. Passa aqui!”
“Okay. Em uma hora mais ou menos te busco.”
Passei no estúdio por volta das 19:40. Caio estava acompanhado de Cadu, seu colega de trabalho.
“Ei, Marco. Cadu pode ir com a gente?”
“Claro. Tudo bem, cara?”
“Tudo sim!” – Respondeu Cadu, apertando firme minha mão.
“Aonde vamos?” Peguntou Caio, todo animado.
“Não sei. Pensei em irmos a algum barzinho ou restaurante aqui por perto.”
“Não sei vocês, mas eu to cheio de fome.” Disse o Cadu.
“Então vamos comer algo.”
Paramos em uma galeteria não muito longe dali.
Eu sinceramente não estava com fome, só pedi alguma coisa pra beber, enquanto Caio e Cadu pareciam estar esfomeados.
“E aí, mano. Quando você me chama pra fazer algo contigo é porque quer conversar. Diz aí?”
“Não tenho nada pra dizer.”
Caio soltou uma gargalhada e me lançou aquele olhar desconfiado.
“Vamos, Marco. Pode dizer, eu to aqui pra te escutar. O que a Ana fez dessa vez?”
“Por que você acha que tem alguma relação com ela?”
“Porque depois que você superou aquela sua ex, aquela bem cansada, sabe? Então, não estou falando da Rita, afinal, essa era linda e eu lamento que não tenha dado certo entre vocês. Mas, voltando ao assunto, depois daquela sua ex, a primeira, só a Ana conseguiu deixar você desse jeito. Você é perito em sofrer por mulheres.”
“É, talvez eu seja mesmo, engraçadinho.” Espremi os lábios e estreitei o olhar para Caio. Não dava pra ter uma conversa séria com ele.
“Okay! Vou falar sério agora. Sempre que você fica chateado assim, é por causa da Ana. Sei lá, parece que quando as coisas vão seguir em frente com você, ela reaparece. Acho que você nunca deixou de gostar dela de verdade.”
“Então, ela foi embora. Foi pra Londres!”
“Tá brincando?” Caio arregalou os olhos e ficou de boca aberta.
“Quem me dera!”
“Quando ela volta?”
“Não tenho ideia. Isso se ela voltar.”
“O que ela foi fazer lá?”
“Participar de um espetáculo que algum brasileiro está produzindo lá, ao que me parece.”
“Ei, você está falando daquele musical sobre as obras de Shakespeare?” Perguntou Cadu.
“Como assim?”
“É que um brasileiro, Renato Pacheco, participou de um festival sobre Shakespeare em Londres, ele fez um roteiro adaptado com uma espécie de medley entre as histórias mais conhecidas de Shakespeare e foi o vencedor. Então, ele ganhou patrocínio de grandes companhias inglesas pra montar uma mega produção. Os críticos estão ansiosos pra ver!”
“Renato Pacheco?” Eu indaguei, Cadu.
“É, um roteirista famoso.”
“Não acredito!” Eu conheci Ana em uma festa do Renato, não sabia que eles ainda mantinham contato. Só sei que Renato tinha uma queda por ela, talvez até por isso a tenha convidado.
Caio e Cadu intercalaram olhares entre mim e eles, com expressões confusas.
“Qual o problema, Marco?” Caio perguntou.
“Eu conheço o Renato. É um velho amigo meu dos tempos de teatro!”
“Você o conhece? Nossa, cara, eu admiro demais o trabalho dele. Com certeza, se tivesse a oportunidade, gostaria que ele escrevesse pelo menos um curta pra eu produzir!” – Disse Cadu animado. Esse pessoal de cinema as vezes me cansava com essas bajulações e todo entusiasmo meio superficial.
“É… Coincidência eu conhecê-lo, não?” Soei em um tom desanimador.
“Sim! Mas cara, quer dizer que a mulher por quem você está apaixonado está em Londres sem previsão de retorno.” Cadu disse sacudindo a cabeça, tentando parecer compreensivo.
“Pois é!”
“Cara, ela gosta de você também?”
“Ela praticamente se declarou pra mim antes de embarcar!”
“Ela é a mulher da sua vida?” Ele disse franzindo a testa.
“Eu sinceramente não sei.”
“Cara, se você acha que é, porque não vai atrás dela? Se ela se declarou, provavelmente não vai te dar um fora.”
“Ir pra Inglaterra atrás de Ana? Isso não rola.” Caio deu outra gargalhada. “Marco gostou dela por tanto tempo e nunca teve coragem de dizer nada, não acho que agora ele teria coragem de ir até lá e dizer o que ele nunca disse. Fora que é loucura!”
Meu irmão me subestimava, mas porque não ir atrás de Ana? Até que não era má ideia. O que eu tinha a perder? Não vou viver atormentado por mais um “e se”. Era tudo ou nada. Comecei pensar na reação de Ana quando visse que eu fui até lá por ela. Bem, se ela não me quisesse, pelo menos eu nunca havia conhecido Londres, era um pretexto. Era arriscar, mas talvez eu precisasse de algo assim. O medo de me magoar mais uma vez nunca me ajudou, parece que só gerou mais feridas, mas eu precisava ter coragem, parar de ser pessimista e pensar que assim como eu poderia sofrer uma decepção, poderia também dar muito certo. Eu precisava de um pouco mais de fé. Eu estava renegando o amor ao invés de aceitá-lo. Comecei a entender que ele não iria acontecer pra mim da forma como eu sempre idealizei, mas eu precisava reconhecê-lo e aceitá-lo da forma como me apareceu.
Enquanto Caio debatia sobre as teorias amorosas de Cadu, um tanto estranhas eu devo dizer, eu fui amadurecendo a ideia em minha mente naqueles poucos instantes que passamos naquela mesa.
“Eu vou atrás de Ana!”
“O que? Tá louco, Marco? Ir atrás de mulher… É justamente isso que elas querem! Depois elas te fazem de capacho! Ir à Londres, do outro lado do mundo por uma mulher?! Mano, pega leve… Nenhuma mulher vale isso!”
“Eu não tenho nada a perder! O que foi que eu ganhei me omitindo tanto, todos esses anos? Nada! Se eu tenho vontade de ficar com ela, eu vou até lá! Ela deve pensar que eu estou quase me casando a essas alturas.”
“Casando?”
“É, ela foi embora porque eu ia pedir Rita em casamento, mas então ela se declarou e as coisas mudaram…”
“Nossa, cara… que drama complicado esse! Tenso esse triângulo.” Disse Cadu, dando um sorriso irônico. “Mas eu te apoio, cara! Quando achamos que vale a pena, temos que nos arriscar, mesmo que pareça loucura!”

Conversamos por mais um tempo e fomos embora. Voltei pra casa decidido do que faria! No dia seguinte fui até a secretária do meu chefe.

“Bom dia, Helena!”
“Bom dia, Marco! Você quer falar com Senhor Eduardo?”
“Não, é com você mesmo! Preciso de um grande favor! Você tem um tempinho pra mim?”
Expliquei a história toda a Helena. Ela tinha a reputação de conseguir o inusitado. Então, pedi pra ela correr atrás do visto pra mim, de passagens e tudo o mais necessário pra viagem.
Claro, isso demorou algum tempo, mas em pouco mais de um mês, Helena tinha tudo pronto. Fiz a entrevista para o visto, tudo deu certo. Ela entrou em contato com um cliente nosso por lá, então conseguiu com mais facilidade a documentação necessária, pois eu iria como se fosse a trabalho.
Embarquei em uma sexta de manhã, tempo nublado. O voo atrasou um pouco por conta da nebulosidade.
Assisti alguns seriados, um filme, dormi, ouvi música, brinquei com o bebezinho ao meu lado.
Finalmente cheguei a Londres. Aproximadamente 12 horas de viagem. Sair daquele avião foi uma das melhores sensações do meu ano.
Fui para hotel em que Helena tinha feito a reserva pra mim. Estava surpreso com a competência dela. Até mesmo os horários do musical ela havia me conseguido.
Coloquei minha mala ao lado da cama. Desci pra comer algo ali pelo hotel mesmo. Quando cheguei lá, já se passava das 22:00, então resolvi ficar pelo quarto. Não demorei muito e adormeci pensando que essa era a maior loucura da minha vida e eu não fazia ideia de como encontraria Ana. Até ri sozinho, porque talvez assim eu estivesse me permitindo viver uma única vez e, independente do que acontecesse, ela ia saber de uma vez por todas o quanto eu a amei, o quanto eu a amava e o quanto poderia amar se ela me permitisse.
Acordei cedo. Não tive dificuldade de me adaptar ao fuso horário. Pedi que o café fosse servido em meu quarto mesmo. Tomei banho, me arrumei e saí.
Peguei um dos táxis em frente ao hotel para o teatro. A bilheteria ainda não estava aberta. Era muito cedo. Então resolvi andar ali pelo centro da cidade. Caminhando pelo quarteirão do teatro quando eu ouvi:
“Unbelievable! Marco?” Olhei para o lado e lá estava Renato. Não dava pra acreditar! “Cara, de todas as pessoas que eu poderia encontrar aqui, nunca imaginei você!”
No meu caso, eu já imaginava que poderia encontrá-lo, mas não era surpresa.
“Ei, Renato! Que surpresa!” – Tentei soar espantado. – “Parabéns pelo espetáculo!”
“Obrigado! E o que você faz aqui?”
“Eu? É… Eu… eu vim a trabalho!” Gaguejei um pouco, eu era péssimo em mentir assim.
“Ei, tá com muita pressa?”
“Não!”
“Então, entra aqui pra ver nosso ensaio. Vai ser bom ter um amigo com quem conversar em português além de Ana.”
Estremeci ao ouvir o nome dela.
“Ah, você sabia que ela faz parte do musical?”

“Ela comentou. Fiquei feliz pela oportunidade que você deu a ela.”
“Ana, além de linda, é excelente quando atua!” Concordei acenando com a cabeça.
O espetáculo estava no Teatro Haymarket. Um dos teatros mais sofisticados de Londres. Fiquei impressionado com a infra estrutura do lugar.
Sentei-me sozinho na sexta fileira do meio. De frente ao palco, naquela imensidão de cadeiras vazias. Renato se sentou um pouco mais a frente.
Foi então que todo elenco entrou, fazendo o número de abertura do musical.
Após todos saíram de cena,  do canto esquerdo do palco, em um gracioso e clássico grand jeté, Ana surgiu.

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